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sábado, 16 de março de 2013

Orçamento para viadutos em SP é inferior à reforma do Orlando Murgel

Ponte da Casa Verde, em São Paulo (Foto: Nathália Duarte/G1)

Ponte da Casa Verde, na Marginal Tietê, tem armado de aço exposto (Foto: Nathália Duarte/G1)
O Orçamento da Prefeitura de São Paulo destinado à manuteção e reforma dos 139 viadutos da cidade neste ano é inferior ao que foi gasto nos reparos do Viaduto Orlando Murgel, que será reaberto neste domingo (17). A estrutura passou por quase seis meses de obras depois de um incêndio na Favela do Moinho, no Centro da capital paulista.
A Prefeitura de São Paulo destinou R$ 8 milhões em 2013 para manutenção e conservação de viadutos. O valor representa menos de 10% do estimado como necessário por especialista ouvido pelo G1.
Para obras emergenciais, o orçamento da Prefeitura prevê R$ 1 milhão. No entanto só as obras no viaduto Orlando Murgel custaram mais de R$ 9 milhões e, no Viaduto Pompeia, R$ 10,8 milhões.
Dos 139 viadutos municipais, ao menos oito contam com as chamadas “ocupações domiciliares” em seus baixos ou alças de acesso, de acordo com a Prefeitura. Além das moradias, os baixos de outros 14 viadutos abrigam barracões de escolas de samba e é possível encontrar também em São Paulo baixos de viadutos ocupados por cooperativas de reciclagem, sacolões, academias, quadras poliesportivas, estacionamentos de veículos e ONGs.
Viaduto da Lapa, São Paulo (Foto: Nathália Duarte/G1)Viaduto da Lapa, onde funciona um sacolão, tem
infiltrações nas paredes (Foto: Nathália Duarte/G1)
Independentemente de seu uso e localização, quase todos os viadutos da cidade sofrem com os mesmos problemas de manutenção e risco de incêndio, segundo relato de pessoas que ocupam os espaços.
De acordo com o engenheiro Gilberto Antonio Giuzio, diretor de engenharia do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco), fissuras, trincas e infiltrações são facilmente encontradas. Além disso, estruturas não tão visíveis – como os aparelhos de apoio e as juntas de dilatação – também precisam ser periodicamente substituídas e são fundamentais para a segurança da obra.
“Os aparelhos de apoio e as juntas são geralmente feitos de borracha e permitem a movimentação térmica do concreto. No caso dos aparelhos de apoio, são colocados entre o pilar e a viga para permitir sua movimentação e evitar trincas. As juntas de dilatação ficam entre as lajes, para permitir a movimentação e impedir a passagem de água pelos pequenos vãos. As duas estruturas precisam ser trocadas de tempos em tempos e são muito importantes para a conservação das pontes e viadutos”, explica o engenheiro.
No baixo do Viaduto da Lapa, onde funcionam um sacolão, lojas e até um restaurante, há infiltrações em quase todas as paredes. A área passa por reformas de ampliação, mas quem trabalha no local reclama da falta de verba para a manutenção.
Viaduto Orlando Murgel, em São Paulo (Foto: Nathália Duarte/G1)Viaduto Orlando Murgel ficou quase seis meses
interditado para obras (Foto: Nathália Duarte/G1)
“De vez em quando a subprefeitura faz avaliações na parte elétrica e estudo das infiltrações, mas é muito raro e a burocracia dificulta bastante. Sempre ouvimos que não há verba disponível. Se quisermos mexer em algo por conta própria, é preciso dar entrada em um processo com o pedido e isso leva tempo”, conta Antonio Vital, responsável pelo sacolão há cerca de quatro anos.
De acordo com a Prefeitura, o Viaduto da Lapa, cujo nome oficial é Comendador Elias Nagib Breim, faz parte dos estudos em andamento na Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb) para futuras obras de recuperação estrutural. O cronograma destas obras ainda está em elaboração.
Já no Viaduto Pacaembu, além das infiltrações, é possível encontrar armado com aço exposto. O mesmo cenário é comum em pontes e viadutos das Marginais Tietê e Pinheiros, devido à passagem de caminhões com excesso de altura – os veículos rompem o concreto e o aço fica à mostra, sem proteção.
Segundo a prefeitura, o viaduto passa por obras para a remoção de concreto danificado e a implantação de nova concretagem, além de pintura das grades. A administração municipal não informou, porém, quando a obra será concluída.
“A dificuldade do gestor está em dispor de verba para a recuperação dos viadutos. O orçamento deve contar com uma verba específica para gastos em manutenção de pontes e viadutos. A partir dessa medida só seria preciso priorizar os locais em que a situação é mais complicada, por meio de inspeção anual”, explica Gilberto Giuzio.
Baixo do Viaduto Pompeia ainda passa por reformas, mesmo liberado após incêndio (Foto: Nathália Duarte/G1)Baixo do Viaduto Pompeia ainda passa por
reformas, mesmo liberado após incêndio
(Foto: Nathália Duarte/G1)
A pedido do G1, o engenheiro visitou com a reportagem quatro viadutos de São Paulo (Orlando, Lapa, Pompeia e Pacaembu) e estimou em R$ 100 milhões o valor necessário para a manutenção dessas estruturas, ao menos no primeiro ano em que a medida fosse tomada na cidade.
“Acredito que esse valor seria necessário, em um ano, para que se realizasse a inspeção e a recuperação de todos os viadutos. É claro que, com a manutenção periódica, esse valor tende a decrescer ano a ano, mas avalio que sejam necessários cerca de três anos de trabalho para que as estruturas sejam todas recuperadas”, diz.
A falta de manutenção periódica, de acordo com o especialista, dificilmente levaria à queda de um viaduto, mas partes da estrutura de concreto podem se desprender, a exemplo do que ocorreu em março de 2011, quando um pedaço de concreto da estrutura do Viaduto Olavo Fontoura despencou sobre um motociclista, que sofreu ferimentos leves.
No mesmo ano, em novembro, parte da mureta de proteção da Ponte dos Remédios caiu no Rio Tietê. A parte destinada aos pedestres também desabou, mas não houve vítimas.
Engenheiro Gilberto Giuziu (Foto: Nathália Duarte/G1)Engenheiro Gilberto Giuziu, diretor do Sinaenco
(Foto: Nathália Duarte/G1)
A Prefeitura explica que as manutenções de viadutos fazem parte da rotina da Siurb, não exigindo projetos específicos. Os viadutos são analisados rotineiramente, segundo a administração, e a manutenção é realizada quando há necessidade de reparos.
Sem prazo de validade
Os viadutos começaram a ser construídos em São Paulo nos anos 50 e 60, mas só em 70 as construções se intensificaram. Questionado se a vida útil dessas horas estaria terminando, o engenheiro rebate e cita a Pont Du Gard, na França, construída ainda pelos romanos. “Não há vida útil nem prazo de validade para uma obra dessas se houver manutenção. Estruturas assim podem durar séculos, mas é preciso que haja fiscalização e restauração contínuas”, afirmou o engenheiro.
Ocupação
A ocupação dos viadutos também é fator de preocupação para o Sinaenco, já que um incêndio pode prejudicar a estrutura. “Pessoalmente, acho que muitas atividades podem ser feitas no baixo de viadutos, porque é uma área boa. Mas é um local que jamais pode ser usado como moradia, por risco de incêndio. O calor afeta principalmente o elemento resistente, que é o aço. Parte do aço é laminado a fogo e ele perde suas características de resistência a 700 ou 800 graus, por isso o perigo.”
A Prefeitura de São Paulo informou que a permissão e a fiscalização do uso dos baixos de viadutos é responsabilidade das subprefeituras. “O interessado em utilizar as áreas sob os viadutos deve entrar com o pedido na subprefeitura local para formalizar o início do processo. Em seguida deve ser feita uma vistoria prévia da área, cujo acesso será disponibilizado pela Subprefeitura, e o responsável estar ciente do seu estado e condições de aproveitamento. Além disso, é necessário apresentar aos órgãos responsáveis da Prefeitura o projeto detalhado das edificações e da forma de utilização do local”, diz, em nota.
No Termo de Permissão de Uso da área consta que o interessado se torna responsável pela limpeza, conservação e manutenção do local, assim como deve observar as exigências sobre a segurança estrutural das pontes e viadutos. Na prática, porém, muitos viadutos, ocupados ou não, sofrem com a falta de fiscalização, inspeção e manutenção.
O último levantamento sobre a situação das "obras de arte" de São Paulo – que compreendem pontes, viadutos e túneis – feito pelo Sinaenco data de 2005. Desde então, com a constatação da crítica condição das estruturas da cidade, o Sindicato tenta formatar uma lei federal que obrigue órgãos públicos a inspecionar e dar manutenção às estruturas periodicamente.


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